| Home | CV | Loja | Literatura | Ilustração | Animação | Memória | Viagens | |
|---|---|---|---|---|---|---|---|---|
| Contacto | Blog | Fórum | Artes Plásticas | Design | Fotografia | L. Visitas | Links |


Radio Girls
Sinatra, Estoril
Houve tempos em que os jornais e outras publicações se utilizavam para ensinar às nossas crianças o que era a língua portuguesa na sua versão oficial. Usavam-se também para as ilustrar sobre o que se passava no mundo, com a certeza absoluta de que todo o assunto publicado era escrupulosamente descrito segundo regras tidas como fiáveis e universais. Claro que à data até existia censura e nem tudo era o que parecia. Ao jornalista cabia, portanto, a industriosa tarefa de registar e descrever factos assinaláveis e merecedores da atenção do público. E mesmo quando o lápis azul traçava as fronteiras do «legível» e «aceitável», o dedicado escrevedor de notícias lá cumpria o seu dever, desviando-se com habilidade e zelo das armadilhas que lhe estendia o poder instituído.
Agora, os deuses nos livrem de folhear um jornal e ler alto, para instrução de jovens e crianças, que «o morto chegou já cadáver», entre outras descrições de inomináveis crimes, notícias de cópia e cola que os vigilantes olhos das novas gerações conhecem de cor e salteado das suas digressões pela Internet. Os deuses nos livrem também de tentar apontar a língua portuguesa lida em papel de jornal ou revista, ouvida nas frequências modeladas pelo País fora e aleatoriamente seguida nos ecrãs da televisão, como exemplo do Português correcto.
Não adianta explicar a ninguém, e muito menos aos «letrados jornalistas» de sorriso promovido por insuspeitas pastas dentríficas, que o verbo ter é sempre seguido de «de» e não de «que», que «à última da hora» se diz, de facto, «à última hora», e que o pôr do Sol não leva hífens (também popularmente conhecidos como «tracinhos»), da mesma forma que o nascer do dito astro não os contempla. De nada adianta tentar contrariar uma tendência que os média, na sua iluminada e imparável missão, perpetuam à exaustão, transformando as transgressões em regras.
A cultura, essa, obviamente, demite-se. O instinto suicida dos média vai ao ponto de substituir as páginas de notícias de cultura pelas versadas em temas dos próprios média, transformando jornais, revistas e rubricas inteiras em versões publicitárias dos seus próprios conteúdos, assumindo-se sem complexos e simultaneamente, como o objecto da notícia e veículo da mesma. Trocado tudo isto em miúdos, a comunicação social portuguesa é o antropófago que se devora a si próprio, sem consciência do enorme paradoxo que está a criar.
Neste contexto, não é legítimo esperar que as artes plásticas tenham o lugar que lhes compete na sua qualidade de manifestações culturais, a menos que uma qualquer Lili ou Pipi decida anunciar a sua deslocação a uma vernissage , substituindo assim o evento cultural pelo social.
É por essas e por outras que se espera aqui dar conta das exposições, experiências e tendências de todo o tipo que aconteçam e se preparem em solo luso e além fronteiras. Esperamos, que além da notícia das suas exposições, os artistas também aproveitem este espaço para anunciar os seus projectos, os seus conceitos e as suas opiniões. Sobre o seu trabalho e o dos outros. Não é justo nem de cariz cultural o isolamento que lhes é imposto por um mercado «forçado» entre um curto circuito de galerias comerciais frequentadas por meia dúzia de «entendidos» e as feiras internacionais, os leilões e os coleccionadores particulares, em divórcio permanente de um público do qual depende, afinal, para o reconhecimento e conhecimento da obra.
Marita Ferreira
© Marita Ferreira 2005 — info@maritaferreira.com — Webmaster